25 de junho de 2010

Wilson Simonal (1938 - 2000)

Para lembrar os 10 anos da morte do maior cantor brasileiro
Na faixa 11 de Show em Si...Monal - disco que registra ao vivo uma das centenas da apresentações de Wilson Simonal em 1967 -, o artista entre conversas e brincadeiras com a plateia finge ler uma edição do Jornal da Tarde que lhe foi entregue por um marciano futurista. A edição é de 24 de junho de 2000 que - coincidentemente ou profeticamente - é a véspera do último dia de vida de Simonal. O dia lento e arrastado da segunda morte do cantor. A primeira foi 29 anos antes, em agosto de 1971, quando as denúncias de torturas sofridas pelo ex-contador de Simonal, colocaram o intérprete num furacão de boatos e intrigas encerrando com uma rapidez impressionante a carreira do maior cantor brasileiro de todos os tempos,

É, a afirmação de Miéle no documentário Ninguém Sabe o Duro que Dei não é fácil mas é possível de ser comprovada. Simonal foi o maior cantor brasileiro. E isso não é pouco num país que já formou João Gilberto e Roberto Carlos, Lucio Alves e Dick Farney, Orlando Silva e Silvio Caldas, Milton Nascimento e qualquer outro que você queira citar. Nos dez discos que gravou para a EMI-Odeon na década de 60, Simonal fez a síntese de quase todas as vertentes musicais brasilieras. Foi ainda o que mais se aproximou da figura do entertainer, o artista completo capaz de cantar, dançar, contar piadas, fazer imitações e se dividir entre vários instrumentos. No planeta, só havia um exemplo a ser imitado: Sammy Davis Jr.

Se mais não fez - além da maneira abrupta pela qual sua carreira foi encerrada - deve-se ao fato de Simonal não ter a exata noção de sua grandeza. O marrento e mascarado, que tinha um ego maior do que o Maracanãzinho, musicalmente deixava transparecer sua fragilidade, dedicando tempo e energia demais a brincadeiras e pilantragens como Meu Limão, Meu Limoeiro e Mamãe Passou Açúcar ni Mim. O verdadeiro Simonal, da voz poderosa, da divisão rítmica perfeita (ou de onde você pensa que Elis tirou os jogos vocais de Águas de Março?), do suingue imbatível, do acesso ao falsete e a um scat jazzístico de entortar se traduz melhor em outras interpretações, muitas delas pouco conhecidas. Exemplos: o Simonal bossanovista (de Sabe Você), o da dor-de-cotovelo (de Sozinha, de Lupicinio), o dos standards americanos (de The Shadow of Your Smile, num impecável dueto com Sarah Vaughan), o dos afrossambas (de Consolação ou então Nanã), o do sambalanço (em País Tropical) e até o Simonal engajado (de Tributo a Martin Luther King, composição de sua autoria lançada um ano antes da morte do líder do movimento negro americano). Vale lembrar ainda a toada moderna (de Sá Marina) e a pré-discotheque nativa com palmas derivada do gênero "a-go-go" de artistas "chicanos" como Chris Montez e Trini Lopez.

Depois de uma vida artística relativamente curta e de duas mortes, Simonal pode estar ganhando uma nova vida, que deixaria de lado os preconceitos, os folclores e as caricaturas. Assim, a obra genial de um artista inovador ficaria em destaque. Pois, paradoxalmente, o que impediu Simonal de ser considerado por muitos o maior cantor do país teria sido o excesso, não a falta. Como se fosse preciso jogar luz sobre o que estava visível – mas que ele viu antes -, burilar, tirando de uma obra imensa tudo o que fosse supérfluo e deixando em destaque apenas o essencial - obtendo da simplicidade o máximo do refinamento.

24 de junho de 2010

A celeste

A boa fase da seleção uruguai deve estar alimentando os sonhos do escritor Eduardo Galeano. Apaixonado por futebol, Galeano dispensa ao esporte o mesmo olhar aguçado que demonstrou ao analisar os problemas do continente em As Veias Abertas da América Latina. Em Futebol – Ao Sol e à Sombra (Tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito), lançado em 1995, Galeano faz um inventário de histórias e personagens do futebol. A análise de Galeano, torcedor do Nacional de Montevidéu, passa pela sua infância que, como admite, foi repleta de sonhos de quem desejava ser jogador de futebol, mas, como confessa no livro, "jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: durante o dia era o pior perna-de-pau que havia visto nos campinhos do meu país".

Coletânea de textos que misturas anônimos – o torcedor, o goleiro, o ídolo –, Galeano é generoso com seus ídolos, reunindo nas páginas do livro craques de diversas épocas como Yashin, Zizinho, Maradona, Paul Breitner e Heleno de Freitas. Nesse Olimpo, o capitão da seleção uruguaia de 1950, Obdulio Varela, ocupa o mais alto degrau. A ele, Galeano dedica um dos momentos mais emocionantes ao recordar como o herói uruguaio comemorou a vitória do seu time bebendo anonimamente em um bar do Rio, ao lado de torcedores brasileiros que choravam a derrota.

Com a diaba no corpo

Livremente inspirado na vida de Madame Satã – só que com mais violência e com menos romantismo – A Rainha Diaba é centrado na atuação de Milton Gonçalves que interpreta o bandido. O filme nasceu a partir do desejo do diretor de mostrar o submundo das drogas e da prostituição no Rio de Janeiro dos anos 70 e teve influências decisivas do teatrólogo Plinio Marcos – também responsável pelo argumento – e do artista plástico Helio Oiticica. "Visitei Helio em Nova York. Ele morava em um loft numa das regiões mais barra pesada da cidade e me apresentou a muitos travestis, o que me permitiu entender o universo da Rainha Diaba", explica Fontoura em uma das entrevistas, que inicialmente chegou a cogitar o cantor Agnaldo Timóteo para o papel principal.

No elenco, destaque também para as atuações de Odete Lara, Stepan Nercessian, Nelson Xavier e Wilson Grey.

22 de junho de 2010

Futebol é coisa séria

Boa análise do jornalista e autor teatral Sergio Roveri - com quem trabalhei entre 2001/2003 - sobre um fenômeno televisivo que não para de crescer: o do repórter esportivo que se considera humorista, poeta, cronista e bufão.
Aprendiz de feiticeiro

Finalmente as pessoas se deram conta de que está nascendo um novo Galvão Bueno. Ele se chama Tadeu Schmidt, está ganhando um espaço absurdo na cobertura da Copa do Mundo e reúne todas as condições para, em pouquíssimo tempo, superar o seu mestre. Acredito que, para as milhões de pessoas que estão vendo os jogos da copa, foi uma alegria muito grande, quase uma vingança, saber que nesta segunda-feira o bordão "Cala a Boca, Tadeu Schmidt" foi o campeão de postagens no Twitter, chegando a superar o histórico Cala a Boca, Galvão. Espero que sirva de alerta para o jovem profissional, que ainda não se decidiu se é repórter, humorista, poeta, cronista ou bufão. Se ele continuar no ritmo em que está, e com o prestígio que vem recebendo da emissora em que trabalha, daqui a alguns meses sentiremos muita saudade do Galvão Bueno. E a postagem campeã do twitter provavelmente será: Volta, Galvão Bueno.


O problema é que o mundo está tão de cabeça para baixo, com os valores tão invertidos, que provavelmente ao ser informado de que virou a estrela do twitter nesta segunda, ainda que por motivos tortos, o jornalista vai respirar feliz e convicto de que está no caminho certo. Na próxima vez em que aparecer na televisão, com certeza hoje à noite, ele terá uma nova crônica tão, mas tão chata, que passaremos a acreditar que Pedro Bial é Carlos Drummond de Andrade.

18 de junho de 2010

Aula de sax

Vai treinando. Quem sabe um dia você toca que nem o John Coltrane.

16 de junho de 2010

Nove mais - Gilberto Gil

Gilberto Gil é sempre lembrado por Realce, Domingo no Parque, Procissão, Drão, Refazenda, Expresso 2222, Oriente, Super Homem...

Aí vão nove músicas de Gilberto Gil que não são consideradas clássicas, mas deveriam ser:
  1. Amor Até o Fim
  2. Coragem pra Suportar
  3. Deixar Você
  4. Ele Falava Nisso Todo Dia
  5. Lente do Amor
  6. A Linha e o Linho
  7. Mar de Copacabana
  8. Quilombo
  9. Tradição
Qual é a tua lista?

14 de junho de 2010

Ouro Negro

De Nova York, meu amigo Zé Nogueira me manda a bela matéria que saiu no NYT sobre o concerto em homenagem a Moacir Santos no Lincoln Center.

11 de junho de 2010

Here comes the sun

Nunca gostei de Fórmula-1, tampouco tive Fittipaldi, Piquet e Senna entre as minhas admirações. Mas gostei de ver essa versão de Here Comes the Sun feita pelo autor, George Harrison, como homenagem ao seu grande amigo brasileiro.

9 de junho de 2010

Som do vinil

Boa matéria do El Pais sobre os discos de vinil mais valorizados na Espanha. Vainica Doble, de Vainica Doble, foi vendido por 2.700 euros.

Aqui é Jim Rockford

Seriado clássico dos anos 70 - e um dos cinco maiores de todos os tempos, na minha opinião - Arquivo Confidencial (The Rockford Files, no original) acompanhava as aventuras e desventuras de Jim Rockford. O detetive interpretado por James Garner cativava pelo estilo simples, pela inteligência e pelo bom humor. Gostava de pescar, de comer tacos, vivia num trailer e atendia os clientes por meio de uma secretária eletrônica. As mensagens, veiculdas sempre na abertura da série, podem ser reouvidas neste endereço.

8 de junho de 2010

Na minha ilha

Em 90 anos de vida, Henri Salvador (1917 - 2008) construiu, em uma carreira de mais de seis décadas, uma das pontes mais criativas entre a canção francesa com estilos musicais de outros lugares, como a música americana, os ritmos latinos e caribenhos e até a bossa nova brasileira.

Seu repertório incluía clássicos do jazz, esquetes, canções divertidas, boleros e mambos. No Brasil, era admirado por muitos, em especial por Caetano, que em 1981 gravou Dans Mon Île, e que o homenageia em Reconvexo, perguntando: "Quem não sentiu o suingue de Henri Salvador?".

6 de junho de 2010

A vanguarda do jazz

Na porta há um toldo vermelho, com o nome do lugar em letras brancas, facilmente reconhecível por qualquer um que tenha um mínimo de intimidade com o jazz. Lá dentro – depois de descer uma escada de 15 degraus – são exatos 123 lugares voltados para um palco tão modesto quanto histórico. O Village Vanguard, que abrigou de John Coltrane a Lenny Bruce, de Miles Davis a Woody Allen, de Woody Guthrie ao escritor-andarilho Joe Gould, tem uma biografia escrita por quem mais entende de Village Vanguard: Max Gordon, seu fundador e – até a sua morte em 1989 – seu principal dínamo. Comandado pela viúva de Gordon, Lorraine, o Village Vanguard continua aberto e mantém o alto nível da programação.

Ao Vivo no Village Vanguard (Editora Cosac&Naify) recupera através da memória do fundador do local alguns dos momentos mais expressivos do que foi feito musicalmente em Nova York durante mais de cinco décadas. O Village Vanguard virou sinônimo de programação de qualidade. Mais: Max Gordon conseguiu se transformar num dos poucos donos de casas noturnas respeitado pelos músicos. Até os de convívio mais difícil – como Charles Mingus e Sonny Rollins – faziam questão de abrir espaço nas agendas para se apresentar no Village Vanguard.

E foi da convivência com os músicos que Gordon aperfeiçoou o sentido de improviso. Assim, o livro reproduz o clima dos mais de 100 discos gravados no local e tem, como sublinha o crítico Nat Hentoff na introdução, um ensinamento fundamental: "Escrever é sentir um ritmo e depois se deixar levar por ele".

Um belo complemento ao livro é este documentário a seguir:
 

4 de junho de 2010

O onipresente Aloysio de Oliveira

Quando Carmen Miranda foi para os Estados Unidos ensinar o que é que a baiana tem, quem estava do lado dela? Quando Walt Disney precisou de alguém para dar uma certa "brasilidade" aos seus desenhos a quem ele recorreu? Quando artistas da bossa nova queriam gravar seus discos com liberdade e criatividade a quem eles procuravam? A resposta para as três perguntas é a mesma: Aloysio de Oliveira. Músico, letrista, produtor, narrador, empresário musical, Aloysio foi um dos maiores e dos mais polivalentes talentos da cultura brasileira do século passado.

Ainda adolescente, com 15 anos, em 1929, já fazia parte do Bando da Lua, grupo que acompanhava Carmen Miranda e que com ela viajou para os Estados Unidos. Por lá, Aloysio, com pouco mais de 20 anos, se enturmou com Walt Disney e trabalhou como narrador (as falas originais de Peter Pan e Capitão Gancho são dele) e consultor de desenhos animados – seus palpites ajudaram a dar forma ao Zé Carioca – e em Alô, Amigos, de 1943, ele cantou Aquarela do Brasil.

Com a morte de Carmen Miranda, em 1955, Aloysio voltou para o Brasil no ano seguinte. Ficou um tempo trabalhando como diretor artístico da gravadora Odeon (onde lançou Tom Jobim, João Gilberto e a cantora Sylvia Telles, com quem se casaria em 1960) e também na Rádio Mayrink Veiga. Passou rapidamente pela Philips, mas logo resolveu partir em vôo solo para a sua gravadora, a Elenco. Foi o período mais feliz e prolífico da sua vida. Em parceria com Tom, compôs canções como Demais, Dindi, Só Tinha de Ser com Você, Inútil Paisagem e Eu Preciso de Você. No final dos anos 60, abalado com a morte de Sylvia Telles num acidente de carro, vendeu o selo para a Philips e regressou para os Estados Unidos. Voltou ao Brasil em 1972, atuando como produtor musical em diversas gravadoras, como Odeon, RCA Victor e Som Livre.

Discreto e elegante – nunca admitiu publicamente seu envolvimento amoroso com Carmen Miranda – Aloysio fez seu testamento com o livro de memórias De Banda pra Lua. Depois disso, fez a última viagem para os Estados Unidos, onde morreu em Los Angeles, em 1995, aos 80 anos.

3 de junho de 2010

Cervejazz

Jazz e cerveja combinam. Ainda mais se forem tratados de maneira inteligente como nesse belo comercial da Heineken reunindo quatro mestres da música latina: Eddie Palmieri, Giovanni Hidalgo, Dave Valentin e Michel Camilo. Também não da para deixar de reparar na bela casa que serve de cenário para Palmieri.


1 de junho de 2010

Nove mais - Caetano Veloso

Caetano Veloso é sempre lembrado por Leãozinho, Beleza Pura, Tropicália, Alegria Alegria, Esse Cara, Terra...

Aí vão nove músicas de Caetano Veloso que não são consideradas clássicas, mas deveriam ser:

  1. Branquinha
  2. Dama do Cassino
  3. Dom de Iludir
  4. Gênesis
  5. O Homem Velho
  6. Louco Por Você
  7. Love, Love, Love
  8. Lua de São Jorge
  9. Luz do Sol
Qual é a tua lista?

Pepe legal

Jornalista fundamental para compreender a imprensa cultural brasileira dos anos 80, Pepe Escobar foi um dos críticos mais argutos de sua geração. Seus textos, primeiro na Folha, depois no Estadão, causavam furor e polêmica. Acabou saindo do Brasil, transformou-se num viajante profissional e, na última década, com o mesmo olhar agudo voltou seu foco para outros temas: a política internacional, a globalização, as novas tecnologias. Se você quer acompanhar o pensamento criativo e original de Pepe o melhor caminho é a coluna que ele mantém no Asia Times.

Pepe continua legal.