Domingo, Junho 05, 2005

Memento

Criei fama de ter boa memória. Bondade dos amigos. Minha memória até que é bem acima da média – embora só há pouco tenha me dado conta disso – e talvez por isso mesmo não tenha causado em mim o deslumbramento que muitas vezes causa nos outros. Primeiro, porque sempre achei que memória não é um dom, apenas uma capacidade de saber organizar datas, idéias, projetos e sugestões. Logo, algo acessível a qualquer um. Segundo, porque sempre dei à memória o tratamento que ela merece: minha desconfiança – e daí criei uma segunda fama: a de guardar papéis, jornais, revistas, discos, gravações e qualquer outro material que julgue que um dia poderá me ser útil. Isso fez com que meu quarto (quando ainda morava com meus pais) e minhas casas se transformem em museus dos ácaros.

"Difícil não é escrever, difícil é tomar nota". Captei essa citação agora (de cabeça) para me socorrer. É do Ivan Lessa e diz muito sobre a atividade que exerço. Acredito que o jornalismo, ainda que focado em dados atuais e, muitas vezes, em prognósticos, não pode dispensar a memória. Ainda me espanta o desconhecimento de muitas pessoas sobre fatos que aconteceram logo ali, numa das primeiras curvas da memória, seja com personagens importantes (são pouco os que ainda se lembram de Luiz Carlos Prestes, Richard Nixon, Farrah Fawcett ou Johann Cruyff), quanto de figuras efêmeras (que fim levou a freirinha de Goio Erê? Aquela, pra quem não lembra, que trocou de lugar com um seqüestrado no interior do Paraná e, meses depois, conseguiu ser recebida pelo Papa).

"O Brasil é um país que a cada 15 anos esquece o que foi feito 15 anos antes". Essa é outra citação (igualmente do Ivan Lessa) que também recupero (de cabeça) para comentar uma meia-verdade. O Brasil, de fato é desmemoriado, mas não é um caso isolado. A amnésia é algo quase universal. E antes que me acusem de saudosista ou de ligado apenas em cultura inútil (ah, isso me acusam bastante e até já tenho uma resposta-pergunta pronta: "afinal, o que é cultura útil?") saco derradeiramente uma citação que talvez justifique tudo o que já escrevi até agora: "a experiência com fatos acontecidos pode ter a mesma utilidade que um carro com faróis voltados para trás". Essa é do Pedro Nava.

Na Rede

Durante 12 semanas, entre setembro e dezembro de 2003, mantive uma coluna que misturava internet e assuntos diversos no site Coletiva. Poucas vezes algo da minha lavra teve tanta repercussão, mas por um desses desencontros do destino ("vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro", dizia o meu poeta favorito) tive que deixar de fazer a coluna. Foi o Daniel Bittencourt, amigo e atento leitor daquela época, quem sugeriu que eu retomasse a coluna. Ainda não sei se vou seguir o conselho dele, mas enquanto penso, vou publicando aí alguns pedaços de algumas colunas passadas. Os temas são variados mas uma idéia une todas: o exercício de memória. Algo que sempre me fascinou e que de certa forma eu tento explicar no texto acima.

Sábado, Junho 04, 2005

Pra dizer adeus

Desde que li uma matéria do meu amigo Tárik de Souza, capa de um Caderno B de novembro de 1982 que guardo até hoje, que falava sobre os dez anos da morte de Torquato Neto, fiquei impressionado com a vida (curta) e a obra (gigantesca) do grande poeta piauiense. Ultimamente ando pensando muito em Torquato Neto. Na sua figura triste, melancólica, mas ao mesmo tempo criativa, inovadora e radical.

Talvez tenha pensado mais também influenciado pelos bons trabalhos que saíram recentemente: uma biografia escrita pelo jornalista curitibano Toninho Vaz e uma vasta e completa reunião de textos feita por um outro amigo, o editor Paulo Roberto Pires, que juntou quase tudo que Torquato Neto escreveu nos dois volumes de Torquatália. Pude publicar na Zero Hora dois textos sobre os livros. Quem não pôde ler na época, os textos: sobre a biografia e sobre a coletânea.

Domingo, Maio 15, 2005

Não sou eu quem me navega

Como já estava quase virando uma espécie de Salinger dos blogueiros - não pela qualidade da escrita, obviamente, mas pela periodicidade entre um post e outro - volto agora para deixar uma segunda impressão musical, não por acaso sobre o momento mais sublime das minhas curtas férias. Falo do show de Hermínio Bello de Carvalho, que estreou na primeira quarta do mês no Centro Cultural Carioca e fica em cartaz até o final de maio.

A apresentação é o resumo da caixa de cinco CDs lançada pela Biscoito Fino em homenagem aos 70 anos do homem que há mais de quatro décadas está na história da MPB, não só pela descoberta de Clementina de Jesus, mas pelas parcerias com Paulinho da Viola, Chico Buarque e Sueli Costa. Zé Renato, Áurea Martins e Zezé Gonzaga cantam uma parte do vasto repertório do autor que por apenas um verso ("Visto assim do alto, mais parece o céu no chão") já merecia ficar inscrito em qualquer antologia da música brasileira. Parafraseando um verso do próprio autor, eu diria que Hermínio "não é só isso que se vê - é um pouco mais".

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Letra & Música

Gaúcho e colorado, nasci em 1967, ano em que John Coltrane deixou este planeta e foi atrás das músicas das esferas. E é atrás dos sons dessas e de outras esferas que venho correndo desde que me conheço por gente. Não consigo lembrar de fase da minha vida em que a música não estivesse presente. Primeiro, como lazer e, nas duas últimas décadas, quase como meio de vida.

Como jornalista, tento me dividir entre essas duas paixões – a letra e a música –, que já me fizeram morar em três cidades (Porto Alegre, Rio e São Paulo), passar por diversas redações (Rádio Cultura, Correio do Povo, Zero Hora, Jornal do Brasil, RBS TV, TVCOM, Gazeta Mercantil, Jornal da Tarde e Zero Hora de novo), além de permitir que eu colaborasse com vários veículos (Estadão, ShowBizz, Revista Imprensa, Interview, CliqueMusic, NO, Bundas). Nesses anos de profissão procurei conciliar o prazer de descobrir um novo disco, um novo músico com a possibilidade de passar isso para o papel (é... cheguei a trabalhar com lauda e máquina de escrever) ou para o computador e tentar dividir esse prazer com algum possível leitor.

Neste blog quero jogar alguns textos, algumas idéias, alguns sons à procura de respostas e, principalmente, de mais perguntas sobre o que é interessante ser ouvido. Neste blog vão estar textos do passado e do presente. E até esboços de um futuro. Um caminho desconhecido, mas certamente sonorizado.