27 de dezembro de 2010

Mendigo mecenas

Em Dzi Croquettes, um dos melhores documentários feitos no Brasil, um personagem misterioso passa quase despercebido. Quando os cinco "croquettes" sobreviventes – e também a "madrinha" Nega Vilma – recordam o "início do fim", são unânimes em lembrar a figura de um fazendeiro que os trouxe para uma temporada no interior da Bahia. Foi a partir daí que a coisa começou a degringolar, e o grupo se dissolveu. O nome do misterioso anfitrião é citado muito rapidamente: Veras.

Fiquei curioso e fui atrás.

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Veras é (ou melhor, foi) Divaldo Angelin Veras, um pernambucano nascido em abril de 1940. Foi paraquedista no Rio de Janeiro e lá conheceu a mulher com que viria a se casar, herdeira de uma fortuna em fazendas de cacau. A partir de então, teve uma vida de excesso e loucuras.

Foi amigo de Pelé, Sônia Braga, Fernanda Montenegro e Janis Joplin (que considerava feia e fedorenta). Colecionava Mercedes e passava longas temporadas nos Estados Unidos e na Europa. Numa dessas viagens, conheceu e se aproximou de Lennie Dale. O bailarino americano foi a ponte entre Veras e os Dzi Croquettes, que rapidamente tratou de convidá-los a serem seus hóspedes na fazenda baiana.

A temporada foi trágica, rachando o grupo e ajudando a afundar ainda mais o patrimônio de Veras. Morreu em 2007, devastado pelo alcoolismo e perambulando pelas ruas de Ipiaú (BA), onde era conhecido como o mendigo que falava várias línguas. Em sua louca lucidez (ou lúcida loucura), demonstrava ter consciência da vida de excessos e delírios que viveu. Não se arrependia e reafirmava que “dinheiro não foi feito para se perder. Dinheiro foi feito para se gastar”.

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Pouco antes de morrer, Veras foi homenageado com o documentário DeVeras, dirigido por Paulo Thiago Ribeiro.
 

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