11 de maio de 2010

Viva Mafalda!

Poucas pessoas afrontaram tanto os militares argentinos quanto uma menina de pouco mais de seis anos, desarmada, mas que com sua ironia, perplexidade, irreverência e revolta canalizava as insatisfações políticas e sociais, não só dos nossos vizinhos, mas de toda a América Latina. Condenada à infância e à irrealidade, Mafalda – criação mais genial do desenhista Joaquín Lavado, o Quino – continua sendo um dos personagens mais atuais da história do século 20 e um dos retratos mais bem acabados das mudanças contraculturais dos anos 60.

Foi em 29 de setembro de 1964 que a história da menina inconformada com a humanidade, que odiava sopa e que amava os Beatles foi publicada pela primeira vez no jornal Primera Plana, de Buenos Aires. Paradoxalmente, a garotinha que questionava a sociedade consumista havia surgido um ano antes, quando Quino atendeu a uma encomenda de uma agência de publicidade, que necessitava de uma personagem para uma campanha de eletrodomésticos. Os anúncios nunca foram feitos e Quino readaptou sua ideia. Deu tão certo que as aventuras de Mafalda e seus amigos Manolito, Felipe, Miguelito, Guille e Susanita passaram a ocupar regularmente as páginas de inúmeras publicações da Argentina e de outros países.

O autor – hoje com 78 anos, morando na Europa, se divididindo entre a Espanha e a França – parou de desenhar essa menina de cara redonda e cabelos escuros que conversava longamente com um globo terrestre sobre os conflitos e as injustiças sociais do planeta por ela ter crescido demais. Dez anos de piadas com os mesmos personagens pareceram-lhe uma eternidade. Quino não pretendia encerrar a carreira, apenas queria se dedicar a outros trabalhos. Ele abandonou Mafalda, mas ela não o abandonou. Até hoje seu nome é vinculado ao dela e Quino continua viajando pelo mundo para falar sobre sua mais perfeita invenção.

Nos conturbados anos 60 – dos Beatles e do Vietnã, de Martin Luther King e de Maio de 68, dos irmãos Kennedy e de Woodstock – Mafalda aprendeu com Che Guevara que era possível ser duro sem perder a ternura. E que nessa América Latina, onde Julio Cortázar disse que não importava o que ele pensava de Mafalda e, sim, o que ela pensava dele, não é de se espantar que Quino, quando resolveu congelá-la em 1973, deveria estar acreditando que muitos poderiam pensar que não foi ele quem criou Mafalda – mas ela quem criou ele.

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